NILSON RUTIZAT
Escrever para mim é como respirar, eu preciso escrever para continuar vivo.
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Textos
Camisa Verde
Contar uma história ficou para os mestres, que tem nos poros a sensibilidade e nas mãos a habilidade de traduzir em palavras cada gesto, sentimento, pensamento de uma personagem. Pobre de mim! Estou longe de ser um mestre na arte de contar história, tão pouco tenho as habilidades necessárias para fazer isso. Tenho, no entanto, um desejo lancinante de contar-lhe o que me ocorreu naquele dia.
Eram 11 horas da manhã, o dia era 04 de dezembro de 2013, foi tão marcante aquele dia que me lembro... uma terça-feira. Eu tinha acabado de chegar da faculdade. No meu quarto, deitado, eu digitava o trabalho de Sociologia da Educação, uma pesquisa sobre o conceito de educação. No meu notbook tocava mais uma música de Adele – skyfall – não era a minha música favorita, mas era a mais propícia, me ajudava a relaxar. Meus pensamentos se alternavam entre o trabalho e a prova que eu faria na quinta-feira.
Eu era um bom aluno, já estava no 6º período de Pedagogia e nunca tinha feito uma prova final. Mas como a perfeição nunca é duradora, aquela dedicação toda também não seria. Eu já sabia até o motivo do fim daquela dedicação, estava apaixonado. Era uma paixão tão intensa, tão cheia de desejos e tão pobre de reciprocidade. E foi justamente pela falta de reciprocidade que muitas vezes, sem sucesso, tentei me livrar desse sentimento. Infelizmente, a razão de toda aquela efervescência de sentimentos cruzava o meu caminho todos os dias, estava comigo.
Às 11 horas daquele dia eu digitava o trabalho de Sociologia da Educação justamente para tentar livrar-me da dor que me torturava, pois tinha acabado de ver o meu grande amor, acho que grande amor é um pouco de exagero porque não era amor o que eu sentia, era desejo: de tocar-lhe a pele, de sentir seu corpo junto ao meu, de poder tocar seus pelos pubianos com meus lábios... Mas digitar o trabalho e ouvir Adele não estava adiantando, só me vinha à cabeça a paixão e a impossibilidade de realiza-la.
Ao longe um som, irritante, quebrava todo aquele ambiente de melancolia e frustação que eu havia criado. E minha mãe entrava no meu quarto com o celular na mão, que tocava desesperadamente, quase pedindo para ser atendido. Ela me perguntou se eu iria atender, lhe disse que sim. Ela tinha muito orgulho em me ver estudar, tanto que se gabava para as amigas, dizendo:
- Júlio é um bom menino. Não namora sério, não gosta de festas, adora estudar – e as amigas, desconfiadas, a parabenizavam. Peguei o celular da mão dela e não acreditei, era ele, Lúcio.
- Não vai atender? – minha mãe perguntou ainda em pé a porta.
Olhei-a e não disse nada, apenas atendi ao telefone.
- Alô!
- Acho que ficaram na faculdade.
- Ta bom, eu vou buscar aí.
- Tchau!
- O que ele queria? – minha mãe perguntou ainda em pé a porta. Então a disse que ele havia levado para casa dele meu livro que eu tinha esquecido na faculdade e que me pedira para eu ir lá buscar. Fui terminando de contar já no portão de saída.
Meu coração estava em disparada, poucas vezes eu tinha ido à casa de Lúcio. E essas poucas vezes foram os momentos que mais me aproximei de realizar minha paixão. A casa era próxima, caminhei devagar para ter a sensação de que tudo iria acontecer como eu estava pensando. Após um bom tempo caminhando cheguei a casa dele. Na porta, ele me esperava de short, sem camisa. Nos trajes que ele me recebeu, já sabia que ele não estava com visita.  
Ele, com um largo sorriso me cumprimentou com uma tapa nas costas. Eu entrei.
Vi que ele estava sozinho, Amanda, sua esposa não apareceu. Fiquei em silêncio. Ele vendo que eu estava constrangido com a maneira em que ele estava vestido, desculpou-se dizendo que estava indo tomar banho. Levantei-me e quis me despedir, eu não estava à vontade com aquela situação. Ele exibia seu peitoral largo e peludo, suas pernas torneadas e também peludas me desconcentravam. Ameacei sai, ele tomou minha frente e pediu que eu o aguardasse sair do banho para almoçarmos juntos. Eu aceitei, éramos bons amigos.
Enquanto ouvia a água do chuveiro caindo lentamente, delirava, imaginando a água correndo pelo seu corpo, tentando projetar a imagem de seu corpo molhado. Fiquei no sofá por uns 8 minutos, sim, foram 8 minutos, eu contei. Não sabia o que fazer. Então eu decidi contar o tempo que ele levava para tomar banho, se passasse de 5 minutos é porque ele estava se masturbando, eu pensava.
Por várias vezes, no barulho da água a escorrer, tentei identificar o movimento de uma mão na masturbação. Tanto quis que ele se masturbasse, que em alguns momentos podia apostar que ele estava... mas ao abrir os olhos percebia minha imaginação a me enganar. Por quantas vezes? Eu não sei. Já não sabia o que era desejo e o que era realidade.
Ele saiu do banho, e aqueles eternos 8 minutos chegaram ao fim. Uma decepção dilacerou aquele momento de devaneio, ele estava vestindo short e camisa. Ali se foi tudo o que eu mais queria naquele dia: ver seus pelos peitorais molhados. Mas como sempre, nada acontecia como eu imaginava. Ele sorriu e me convidou para almoçar. Diz-lhe que não e peguei meu livro, dirigi-me à porta de saída. Diz-me, como poderia almoçar se meu apetite foi vorazmente inibido por uma maldita camisa verde?
Abri a porta. E de volta a dura e cruel realidade eu sussurrei um “já vou”. Ele dirigiu-se até a mim e pondo sua mão sobre o meu ombro, olhando firme nos meus olhos, me disse:
- Eu tenho algo muito sério para lhe falar.
Por um instante perdoei a maldita camisa verde e de novo voltei à vida. Senti o sopro do desejo em mim, era o delicioso ar que saia de sua boca enquanto me dizia que precisava me confessar um segredo.
- Diga-me. Implorei-lhe num longo e aliviado suspiro.
Ele puxou-me pelo braço me convidando para sentar no sofá. Sentamos. Sua mão tocou meu joelho e pude sentir o seu toque. A música, não tinha, mas um leve som de cachoeira embalava aquele momento, o nosso momento. Ele tocou-me com a outra mão, agora suas mãos tocavam meus joelhos que ardiam com seu toque. Ouvi ao longe uma voz que tentava me dizer alguma coisa, eu pensei ser a voz dele. Claro, ele também estava nervoso.
- Você está...
- Oh, você...
- Meu Deus! E meu acordei no grito. Ele segurava meus joelhos e sacolejava-me desesperado.
- O que aconteceu? Perguntei em súbito ao acordar.
- Não sei – respondeu-me – sai do banho e já lhe encontrei assim, desacordado.
- Desacordado? - Não quis acreditar, tudo não passou de um devaneio. De um forte e convincente delírio. Recuperei-me. Mas se tudo foi um delírio, a maldita camisa verde não existia. Dirigi o meu olhar ao seu peitoral louco para saciar meu desejo de ver seus pelos molhados. MALDITA. INFAME. INCONVENIENTE. A camisa verde estava lá.  Peguei meu livro e fui embora. Não sabia distinguir o que tinha sido real e o que era apenas imaginação, delírio. Mas sai dali com uma certeza, eu odiava a cor verde.

Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 19/09/2016
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