NILSON RUTIZAT
Escrever para mim é como respirar, eu preciso escrever para continuar vivo.
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NA FILA DO SUPERMERCADO
 
          Manhã de domingo, ela foi ao supermercado comprar algumas coisas que faltavam para o almoço. O Alberto e suas manias de convidar a família para almoçar no domingo, ela pensou. Tinha ódio de ter a casa cheia no dia que foi feito para o descanso. Eles comiam e iam embora, tudo sobrava para ela. Até ter que ir ao supermercado porque Alberto esqueceu de comprar o presunto, o tomate e a cebola. Ela já tinha dito tantas vezes a ele que a receita sem o presunto não prestava.
            “Fila Rápida” até 10 volumes. Leu o letreiro no caixa, conferiu na cesta de compras um pacote com o presunto, um com a cebola e outro com o tomate. Três volumes, concluiu feliz. Uma idiotice, pensou em seguida. Não tinha necessidade de contar, quem não saberia que naquela cesta tinha menos que 10 volumes? Encaminhou-se ao caixa, uma fila enorme, como era todos os supermercados de sua cidade no dia de domingo.
            Olhou as compras do senhor que estava passando no caixa: um fardo de cerveja, ovos de codorna, linguiça e carne. Aposto que sobrará para sua esposa preparar tudo enquanto ele com os amigos bebem a cerveja, pensou rancorosa. E a fila seguiu não tão depressa como ela desejava. Por fim incomodou-se com a pressa que estava. Não havia necessidade de estar apressada, em casa apenas os afazeres da casa lhe aguardavam.
            Os almoços e churrascos de fim de semana começaram por culpa de Helena. Quando casou-se com Alberto quis mostrar a casa enorme em que viviam, o quintal grande e um espaço muito amplo, onde mais tarde seria o seu jardim e a churrasqueira. Com o tempo tudo foi perdendo sentido, ela agora queria sair no domingo, almoçar fora, ser servida. Mas Alberto insistia em continuar a oferecer o almoço no domingo aos amigos, à família...
            - Moça, a fila! – apontou o rapaz que estava atrás dela, indicando que a fila tinha andado e que ela precisava dar alguns passos para frente.
            - Obrigada! – respondeu gentilmente seguindo a fila e aproximando-se de um rapaz, negro e mal vestido que estava a sua frente. Surpresa, indagou-se como não tinha visto aquele rapaz tão singular na fila. Ele não tinha uma cesta de compras, segurava nas mãos sacos plásticos transparentes, três, ela contou. Num, um pedaço de carne cheio de pelancas, escolheu a carne mais barata, pensou ela. No outro, um pouco de tomate e no último, algumas cebolas.
            Ela olhou dentro de sua cesta, conferiu o presunto caríssimo que havia comprado para sua receita, sentiu-se superior. Agora a cada passo que o rapaz negro e mal vestido dava, ela seguia. Imaginava quem iria preparar a comida para ele, seria uma mulher com certeza, negra e mal vestida como ele, mas uma mulher. São sempre as mulheres. De novo a fila andou e ela seguiu. Estava sem conseguir parar de pensar em como era a mulher do rapaz negro.
            Alguns minutos depois, começou a sentir ódio daquele rapaz. Por que ele estava sujo e mal vestido? Por acaso não havia lutado pelo que ele sonhava? Era um preguiçoso, concluiu finalmente. E o odiou ainda mais. Ele poderia seguir o exemplo dela, batalhar por seus objetivos. Ou será que ela tem condição financeira apenas por ser branca e bonita? Claro que não, isso é ridículo.
            Olhou a fila do outro caixa, tentando disfarçar seus pensamentos. O rapaz na sua frente já estava constrangido com os olhares fixos dela, era preciso disfarçar. Um homem jovem e também negro estava na fila do outro caixa, ela olhou novamente para o negro na sua frente, o outro era mais negro, mais feio até. Mas estava bem vestido, um carrinho de compras cheio de mercadoria de marca boa, uma chave na cintura dele indicava que ele estava dirigindo um Honda. E o negro na sua frente se fazendo de coitado.
            Num súbito ela desejou apontar para o negro na outra fila e dizer:
            - Veja, ele também é negro. Não é a cor da pele que determina o que você vai ser. Corre negrinho, vá em busca de seu sonho. – não disse nada. A vida dele não era de sua conta. Se ele lhe pedisse alguma coisa, ela diria a ele. Sentiu então um desejo enorme de dar o presunto para o negro, apenas para dizer-lhe o que pensava sobre ele estar comprando pelancas. Porém, quando voltou a olhar para o negro na sua frente, ele já estava no caixa passando as compras.
            Enfim, ela seria a próxima e voltaria para casa. Faria o melhor almoço de domingo de todos e a noite quando todos fossem embora, ela iria conversar com Alberto. Não teria mais almoço de domingo em sua casa. Eles iriam no domingo seguinte a um ótimo restaurante, ela sentaria a mesa conversando com o esposo a espera de alguém que atendesse aos seus pedidos. Depois voltariam para casa, onde encontrariam tudo limpo como haviam deixado.
            Um diálogo interrompeu o  pensamento agradável de Helena. O negro mal vestido ainda estava no caixa. Não tinha motivo para ele continuar ali. Então ela se aproximou e começou a colocar suas compras vagarosamente no balcão, a fim de ouvir o que estava acontecendo. O negro parecia agitado, com a sacola de compras, sugeria que o empacotador tirasse alguns tomates e algumas cebolas. Mas, por quê?
            Foi só quando Helena viu no visor do caixa o valor de R$ 23,00 e na mão do rapaz uma nota de dez reais, outra de cinco reais e outras duas de dois reais, que ela entendeu o que estava acontecendo. Ela se aproximou ainda mais do empacotador e do rapaz negro e mal vestido, ia se oferecer para pagar o dinheiro que estava faltando. Mas o empacotador, que não era negro, nem mal vestido, tirou a carteira do bolso e deu a moça do caixa duas notas de dois reais. O rapaz negro pegou sua sacola e saiu do supermercado constrangido.
            Helena sentiu um nó na garganta. Lembrou-se das inúmeras vezes em que foi ao supermercado com o dinheiro contado. Ela e a irmã faziam a soma dos produtos que colocavam na cesta para que não passasse do dinheiro que elas tinham. A fim de se sentir melhor, Helena pensou que mais tarde aquele rapaz iria se dar bem. Iria vencer na vida. Não valia a pena relembrar a vida difícil que teve, agora ela podia comprar o que queria. Morava numa casa enorme, com jardim e churrasqueira.
            A moça do caixa passou os produtos de Helena:
            - Deu R$ 102,00, senhora – Helena tirou do bolso duas notas, uma de cem e outra de cinquenta reais e entregou a moça do caixa. A mesma quantidade de pacote, pensou. Por que comprar coisas tão caras? Presunto e Tomates italianos, cebola, ela não sabia de onde era. Só sabia que era muito cara e se lhe cobravam muito dinheiro por algo, ela concluía que era bom.
Enquanto recebia o troco, Helena ouviu a moça dizer ao empacotador, ainda se referindo ao episódio do negro mal vestido:
- ainda bem que ele não estar roubando, né? – o empacotador percebendo que Helena havia escutado o comentário da moça, baixou a cabeça e ficou em silêncio, constrangido com a visão racista da colega. Helena pegou as sacolas e o troco e saiu apressada, não concordava com o que a moça tinha dito. No entanto, o que mais lhe incomodava, era o que tinha pensado do jovem, que agora não tinha mais coragem de chamá-lo nem de Negro, nem de mal vestido.
 
Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 26/07/2020
Alterado em 27/07/2020
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