NILSON RUTIZAT
Escrever para mim é como respirar, eu preciso escrever para continuar vivo.
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DA JANELA DO MEU APARTAMENTO

Estava a olhar pela janela vendo as pessoas irem e virem apressadas, quando vi ela chegar. No momento em que ela desceu do carro senti uma conexão entre a gente. Quis descer e cumprimentá-la, mas percebi que não daria tempo, pois eu morava no segundo andar do prédio. Fiquei apenas a observá-la.

Aquele momento da tarde era a pior parte do meu dia. Estava sempre entediado e como rotina ficava observando o mundo pela janela do meu quarto, que dava para rua. O que via, no entanto, causava-me ainda mais tédio. Uma correria sem sentido. Buzinas gritando, pessoas correndo... aquilo tudo me deixava irritado.

Ela era diferente de todos que iam e vinham, trazia-me calma. Era bom vê-la. E foi isso que fiquei fazendo por quase 20 minutos. Ela não ia embora. Tinha dado tempo, pensei de repente. Eu poderia ter ido lá, inventado alguma desculpa para falar com a moça calma e sorridente, na calçada do meu prédio. Mas ainda dava tempo.

Fui ao banheiro. Um pouco de perfume com certeza me ajudaria. Só quando vi o creme dental foi que me dei conta de não ter escovado os dentes após o almoço. Não pega bem falar com alguém de mau hálito, pensei. Enfim, estava pronto. Agora era só esperar o elevador.

Quando o elevador abriu, ela saiu rumo ao meu apartamento. Não consegui falar com ela, como todos os demais moradores do prédio, ela fingiu não me ver. Será que ser recluso havia me tornado estranho? Desisti de descer, o motivo de querer fazer isso acabava de sair do elevador.

Voltei para meu apartamento. Ela então entrou no apartamento da frente. Justo o que há muito tempo não era alugado. É um sinal, eu pensei, só pode ser um sinal. E comecei a pensar em como recepcionar a minha vizinha. Uma torta seria uma boa, mas eu não sabia fazer torta. Um vinho talvez? Não.

Aquele acontecimento marcou minha tarde e ocupou todo o meu tempo ocioso. Enquanto os carregadores traziam a mudança, eu pensava em como recepcioná-la. Sentia-me como alguém preparando a ceia de natal para os filhos recém chegados de outro estado, ansiosos pela noite natalina.

Como assim, filhos? Parei de repente assustado com o pensamento. A moça que estava se mudando para o meu prédio tinha a minha idade, se mais nova, não mais que uns dois anos. Eu tinha 28 anos e ela com certeza passava dos 25 anos. Comecei a sentir que era mesmo estranho. Como pensar em família diante de uma jovem tão linda?

Depois de muito planejamento, enfim, cheguei à conclusão de que ela iria precisar jantar. Ainda bem que o assado do almoço tinha sobrado, preparei uma quentinha e fui conhecê-la. Já eram mais de 19 horas, ela com certeza estava cansada e faminta.

A porta de seu apartamento estava aberta. Chamei por várias vezes. Ninguém respondeu. Não sei porque eu entrei, sentia-me atraído por aquele lugar. As caixas ainda fechadas no chão. Num móvel apenas a tevê e alguns porta-retratos. Fui até a cozinha chamando alto, mas ninguém respondia.

Sentei-me do lado de uma caixa enorme, que possivelmente seria a geladeira, para abri algumas caixas de livros. Era errado, eu sabia, mas a curiosidade era mais forte. Quando puxei o lacre da primeira caixa, alguém entrou no apartamento, chamando-a:

- Natalia, eu trouxe o jantar, cadê você – um jovem alto, moreno e muito forte entrava com algumas embalagens de comida na mão.

Encolhi-me por trás da caixa grande, buscando estudar uma maneira de fugir dali sem ser percebido. Não tinha como explicar porque eu estava abrindo as coisas de uma pessoa que acabava de se mudar e que mal tinha visto. Ela chamaria a polícia. Eu estaria ferrado.

O rapaz tirou do bolso o celular e ligou para alguém. Enquanto conversava foi até o móvel, pegou o porta-retratos com a foto de uma família e começou a observar. Enquanto isso, eu pensava numa maneira de sair despercebido, aproveitando sua distração. Quando fui me levantando, ela entrou no apartamento.

E respondendo à pergunta dele, disse que desceu para pagar o rapaz que ficou olhando suas coisas na rua, enquanto eram trazidas para o apartamento. Ferrei-me. Não tinha como fugir. O jeito era esperar que eles dormissem para que eu fosse embora.

O que me assustava era que não tinha nenhuma cama montada. Esperei. O suspense tomou conta de mim, algo bom, pois há muito tempo não me lembrava de ser tomado por essas emoções, eram sempre as mesmas coisas. E o tédio da tarde.

- Você trouxe jantar – ela falou empolgada pegando as sacolas que ele ainda estava a segurar – Comida japonesa? Realmente você é o melhor namorado que uma garota poderia ter – elogiou-o, procurando um lugar para se sentar.

Sentou-se numa das caixas e pôs-se a comer. Realmente, minha ideia era ótima, ela estava faminta. Pena que ela já tinha alguém para lhe trazer comida. Senti um enorme ciúme como se ela estivesse me traindo. Ela devia estar comendo a comida que eu havia trazido para ela, não a dele.

De novo, ele pegou o porta-retratos com a foto de uma família. Seriam eles casados? E se fosse, o que eu tinha a ver com isso? De fato, aquela situação e aqueles pensamentos me mostravam porque as pessoas não se aproximavam de mim. Fingiam não me ver. Eu era mesmo muito estranho. Decidi sair sem ser percebido, e deixar que eles vivessem suas vidas. Mas precisava de uma oportunidade.

- Pronto, já trouxe sua mudança, fez o que você queria, mas quero que vá dormir na minha casa. – ele falou sentando-se do lado dela.
​​​​​- Não precisa, eu desembrulho o coxão e durmo aqui mesmo – ela respondeu, parando de comer.
- Não senhora, quando tudo estiver montado, ai sim, eu deixo você se instalar. Que tipo de namorado eu seria se deixasse minha namorada no meio de uma bagunça dessas? – indagou, abraçando-a.

Enquanto isso, eu ansiava para que ela aceitasse o convite do namorado. Seria perfeito para mim. Ninguém me veria saindo do apartamento e ainda poderia ser um bom vizinha para ela.

Conversa vai, conversa vem e ela nada de se convencer. Que mulher teimosa! Queria a todo custo dormir em meio à bagunça. A conversa já estava se encaminhando para briga. O namorado, já irritado, levantando o porta-retratos, gritou:

- É por isso que quer ficar aqui?
- É de minha família que você está falando – ela gritou avançando no porta-retratos – e esse apartamento foi tudo o que me sobrou.
- O que custa você dormir comigo uma noite, sua família não está aqui, estão mortos, aceita! – no mesmo instante em que disse isso, percebeu que tinha falado de mais, ela tinha acabado de perder a mãe.
- Vá embora! Suma! Vá embora! – ela o expulsou aos gritos. Arrependido ele resistiu, mas não adiantou. Já com a porta trancada, ela abraçou o porta-retratos e começou a chorar. Senti um enorme desejo de abraçá-la e confortá-la. Assim como eu, ela também era sozinha.

Contive-me e me mantive em silêncio. Eu iria me aproximar dela, mas não daquele jeito. Se ela soubesse que entrei em sua casa sem sua permissão, com certeza me expulsaria, assim como fez com o namorado. O melhor seria esperar.

De repente ela começou a vasculhar as caixas e se aproximou de meu esconderijo. Abriu uma caixa e outra e parecia não encontrar o que estava procurando. A cada caixa ela se aproximava mais. Até que de repente, ela veio para trás da geladeira e abriu a caixa do meu lado. Eu fechei os olhos para não ser visto. Que idiotice! Eu sabia que não funcionaria. Ela colocou o porta-retratos no chão diante de mim. Pronto, teria que enfrentá-la!

Mas ela parecia não ter me visto e abriu a caixa que eu tinha começado a abri e de lá tirou uma camisa igual a que eu estava usando. Quase deu com o braço em meu rosto, porém fingiu não me ver. Então ela abraçou a camisa e cheirou-a:
- Sinto tantas saudades suas, pai! – exclamou.

Diante de mim o porta-retratos com minha foto abraçado a uma mulher e uma criança me causou susto. E então eu fui até ela e a segurei pelos braços, implorando por uma explicação. No entanto, ao invés de segurar seus braços, mergulhei em sua alma e vi o exato momento em que tudo aconteceu.

Ela era uma garotinha, não tinha mais que sete anos. Diante de mim, na varanda da janela, ela estava sorrindo. A minha esposa entrou no quarto e eu a reconheci, era a mulher da foto. Então eu saltei da janela do quarto e cai na calçada. Uma dor insuportável tomou conta de mim e expulsou o meu espírito do corpo dela.

Minha filha estava no mesmo apartamento em que morávamos. Lembrei-me de tudo e me desesperei. O tédio da tarde havia tomado conta de todo o meu corpo, por isso pulei pela janela. Aquele tédio de todos os dias havia me tirado a vida, minha família e todas as minhas boas lembranças.

Agora ela estava ali, morando no apartamento onde perdera o pai. E chorava apegada à camisa que eu mais gostava de usar. Tudo agora fazia sentido para mim. O tédio que me corroera por tanto tempo, o desejo de estar à janela todas as tardes, a ligação que senti ao ver minha filha chegar.

Tudo fazia sentido, eu me lembrava de tudo. Não entendia o desejo de abri a caixa. Agora sabia, era a camisa, era o apego dela por mim, manifestado por meio da camisa, que me atraia daquela maneira. Tudo aquilo me fazia lembrar da minha vida, do meu tédio e do exato momento em que sucumbi.

Sentei-me do lado da minha filha, minha pequena Natalia, e abracei. Pouco a pouco o choro dela foi diminuindo até não escorrer nenhuma lágrima. Ela foi até a cozinha e na pia acendeu o isqueiro e queimou a camisa. O fogo levou junto com a camisa todo meu tédio, meu sofrimento, toda minha dor. Comecei a flutuar e em poucos instantes me vi fora do prédio a voar sobre a cidade, afastando—me cada vez mais da terra, até que...
Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 28/07/2020
Alterado em 28/07/2020
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