NILSON RUTIZAT
Escrever para mim é como respirar, eu preciso escrever para continuar vivo.
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Depois de muitos meses de quarenta, ou afastamento social, como preferir. Decidi arriscar um lazer, mas evitando aglomerações. Fui para um rio numa cidade vizinha, longe de bares e de zonas habitadas. O problema foi que várias pessoas tiveram a mesma ideia que eu, e não demorou muito, o rio concentrava pequenos grupos de pessoas, uns separados dos outros, que comiam, banhavam-se e bebiam, ouvindo músicas e dançando. Em um desses grupos, lá longe, surgiu uma figura chamando a atenção de todos, um negro alto, forte, trajando um shortinho e a parte de cima de um biquíni.

Eu olhei também, não com o olhar homofóbico de muitos que lá estavam, olhei porque chamou minha atenção o estado de espírito que ele demonstrava, parecia feliz e sentia-se bem ali naquela roupa, mostrando ao mundo quem ele era ou quem gostaria de ser. Acredito que a gente passa tanto tempo se diminuindo, moldando-se para caber no mundo das outras pessoas, que acabamos por esquecer quem somos e o que nos deixa feliz, ele não, quem quisesse entrar no mundo dele que entrasse, mas não parecia disposto a agradar ninguém, estava apenas sendo ele.

Alguns comentários e gestos ofensivos foram direcionados a ele, e acabada a surpresa e o impacto de sua chegava àquele ambiente, todos o esqueceram e continuaram a fazer o que estavam fazendo. De repente, em uma pedra no meio do rio, uma cena inusitada: o rapaz travestido de mulher começou a dançar, a fazer uma performance de uma coreografia bem definida, mas sem nenhuma música. As pessoas já não deram mais atenção a ele, mas eu fiquei abismado, ele ria, dançava e se empenhava na execução da coreografia como se estivesse se apresentando para uma grande plateia.

Eu não conseguia parar de olhar, então comentei com um adolescente que estava próximo a mim, sobre a cena do dançarino e disse que ele dançava sem música. O rapaz então me disse que a música não fazia falta ao homem travestido, pois ele era surdo, e que tanto fazia dançar ao lado de um paredão como no meio do nada, a música era para ele um eterno silêncio. Não era silêncio, pensei. A música gritava na alma daquele rapaz, e se esvaia pelos seus movimentos, ele podia até não ouvir, mas entendia e sentia a música.

Não vou romantizar a surdez e nem as agressões sofridas pelo rapaz, que chamei de Dançarino das Águas. As atitudes das pessoas foram sim, inaceitáveis. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de o nosso Dançarino das Águas não se importar com nada daquilo, a única coisa que realmente importava para ele, era viver e sentir, e transbordar seus sentimentos... o resto, ele não quis saber do resto. E por isso me pareceu feliz, autêntico e acabou me afetando, ele me mostrou como damos muita importância as coisas ruins e não aproveitamos o que realmente nos faz feliz.
Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 21/12/2020
Alterado em 23/12/2020
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