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Nilson Rutizat
Escritor de coisas comuns!
Textos

O CORDEL, O CÃO E EU

 

Foi no debulhar do feijão, 

No lanche, que era chibel.

No forte aperto de mão,

No olhar estrelas no céu,

Foi nas noites, em reunião

que eu conheci o cordel. 

 

Um amor, uma aventura

Lido em alto e bom som

a minha mãe fazia a leitura

E dava às palavras, o tom

Lia o cordel com postura

Ler com rima era seu dom. 

 

Em sua voz, ganhava vida

“O Pavão Misterioso”

Um amor que era corrida

num percurso perigoso

A dificuldade era nítida

com um amor vitorioso

 

Nas cascas do feijão, deitado

eu pequeno, enfim dormia

A dúvida de ter sonhado

quando o dia amanhecia

todo o dia ao meu lado

Aquela dúvida crescia

 

E então eu fingia ser 

Um herói do meu cordel, 

Para o mundo inteiro ver, 

No lombo de um corcel, 

Estradas a percorrer, 

Numa tela, feito pincel. 

 

E quando o sol ia embora,

a reunião era refeita.

Para mim, aquela hora

era de todas a mais perfeita.

Um novo cordel agora,

Nova história foi eleita.

 

Senti meu pelo arrepiar

com o folheto em sua mão. 

Minha mãe começou falar

que ia ler sobre o cão

E pediu para se retirar 

Os medrosos da reunião

 

Curioso para saber 

Das feiuras do diabo, 

Resolvi ficar pra ver 

Se tinha chifre e rabo. 

Mas na primeira estrofe 

Com medo quase me cago! 

 

Ela leu as peripécias 

de um homem destemido

Que enfrenta sem inércia

Todo o tipo de perigo

do Brasil até a Grécia

Ele já tinha percorrido

 

O que me causou medo,

me deixou em aflição

Foi quando falou do dedo

Parte do corpo do cão

Que caia sem segredo

Feito uma assombração

 

Naquela casa esquecida, 

Viu o Cão se desmanchar. 

Dizia: Eu vou caindo!, 

Perna e braço viu rolar. 

Mas o bicho se montou 

E foi lhe enfrentar! 

 

O grito foi involuntário

quando descobri o diabo

me senti até otário

quando vi rirem ao lado

O povo achou hilário

de medo, quase me acabo

 

O medo que eu senti

me deixou em suspensão

Acredito até mesmo que vi

Noutra noite, o próprio cão

parado ali quase morri

Senti disparar o coração

 

O fascínio por tudo aquilo

era maior que o meu medo

Fingi que eu estava tranquilo

Meu medo virou segredo

O cão era o meu martírio

E ele tava em todo enredo

 

As noites eram terríveis

Quando falavam do cão

Até que ele saiu do cordel

pra aparecer em situação

Tinha gente que afirmava

Já ter visto o camunhão

 

E para perder o medo 

e viver a grande aventura

decidi também contar

Minhas tristes desventuras 

e comecei a todos jurar

que tinha visto a criatura

 

Foi ali que vi nascer 

O poder de dominar

o meu medo do diabo

por ter aprendido criar

os lugares mais exatos

que ele podia assombrar

 

Foi assim que eu virei

do meu medo o dono

Um roteiro, então criei

hoje assusto e emociono

com as histórias do cão

que pra tudo mundo conto

 

Agradeço a minha mãe

e todo o povo que contou

Histórias de todo tipo

de aventura e de terror

o cordel que estava lá

minha paixão hoje virou

 

Escrevo o que aprendi

com os mestres da contação

que lia e contava histórias

dos escritores do sertão

agora escrever cordel

para mim, é uma missão

 

Nilson Rutizat
Enviado por Nilson Rutizat em 26/07/2026
Alterado em 28/07/2026
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