O CORDEL, O CÃO E EU
Foi no debulhar do feijão,
No lanche, que era chibel.
No forte aperto de mão,
No olhar estrelas no céu,
Foi nas noites, em reunião
que eu conheci o cordel.
Um amor, uma aventura
Lido em alto e bom som
a minha mãe fazia a leitura
E dava às palavras, o tom
Lia o cordel com postura
Ler com rima era seu dom.
Em sua voz, ganhava vida
“O Pavão Misterioso”
Um amor que era corrida
num percurso perigoso
A dificuldade era nítida
com um amor vitorioso
Nas cascas do feijão, deitado
eu pequeno, enfim dormia
A dúvida de ter sonhado
quando o dia amanhecia
todo o dia ao meu lado
Aquela dúvida crescia
E então eu fingia ser
Um herói do meu cordel,
Para o mundo inteiro ver,
No lombo de um corcel,
Estradas a percorrer,
Numa tela, feito pincel.
E quando o sol ia embora,
a reunião era refeita.
Para mim, aquela hora
era de todas a mais perfeita.
Um novo cordel agora,
Nova história foi eleita.
Senti meu pelo arrepiar
com o folheto em sua mão.
Minha mãe começou falar
que ia ler sobre o cão
E pediu para se retirar
Os medrosos da reunião
Curioso para saber
Das feiuras do diabo,
Resolvi ficar pra ver
Se tinha chifre e rabo.
Mas na primeira estrofe
Com medo quase me cago!
Ela leu as peripécias
de um homem destemido
Que enfrenta sem inércia
Todo o tipo de perigo
do Brasil até a Grécia
Ele já tinha percorrido
O que me causou medo,
me deixou em aflição
Foi quando falou do dedo
Parte do corpo do cão
Que caia sem segredo
Feito uma assombração
Naquela casa esquecida,
Viu o Cão se desmanchar.
Dizia: Eu vou caindo!,
Perna e braço viu rolar.
Mas o bicho se montou
E foi lhe enfrentar!
O grito foi involuntário
quando descobri o diabo
me senti até otário
quando vi rirem ao lado
O povo achou hilário
de medo, quase me acabo
O medo que eu senti
me deixou em suspensão
Acredito até mesmo que vi
Noutra noite, o próprio cão
parado ali quase morri
Senti disparar o coração
O fascínio por tudo aquilo
era maior que o meu medo
Fingi que eu estava tranquilo
Meu medo virou segredo
O cão era o meu martírio
E ele tava em todo enredo
As noites eram terríveis
Quando falavam do cão
Até que ele saiu do cordel
pra aparecer em situação
Tinha gente que afirmava
Já ter visto o camunhão
E para perder o medo
e viver a grande aventura
decidi também contar
Minhas tristes desventuras
e comecei a todos jurar
que tinha visto a criatura
Foi ali que vi nascer
O poder de dominar
o meu medo do diabo
por ter aprendido criar
os lugares mais exatos
que ele podia assombrar
Foi assim que eu virei
do meu medo o dono
Um roteiro, então criei
hoje assusto e emociono
com as histórias do cão
que pra tudo mundo conto
Agradeço a minha mãe
e todo o povo que contou
Histórias de todo tipo
de aventura e de terror
o cordel que estava lá
minha paixão hoje virou
Escrevo o que aprendi
com os mestres da contação
que lia e contava histórias
dos escritores do sertão
agora escrever cordel
para mim, é uma missão